21.10.09

Antes da hora.

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Fábio era prematuro. Pesava pouco mais de 1 quilo quando nasceu. A mãe, já passando dos 35, não tivera a gravidez tranqüila que merecia. Da sala de parto o menino foi levado à incubadora, onde ficou por treze dias sob o olhar descrente de médicos e enfermeiras. Uma infecção respiratória, por fim, colocou um ponto à vida que mal começara. Lágrimas de uma família incompleta rolaram pelo pequeno que, saberia-se depois, não partiria tão facilmente. Primeiro vieram os choros infantes durante a noite e os brinquedos que caiam no quartinho vazio. Depois a depressão da mãe que, uma semana após, não dormia ou se alimentava. Perdera a sanidade, pensavam. Na segunda semana, perdeu também a saúde: acamou-se por doença desconhecida. No décimo segundo dia, ninava com braços fracos um corpo que não se via: dizia estar finalmente embalando o filho querido. No raiar do décimo terceiro, seus olhos distantes encontraram a morte. Pois, assim como a criança que gerou, também ela não estava preparada para as cruezas deste mundo.

20.10.09

Love hurts.

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Ah, o amor.

Existe no mundo coisa mais bela e sublime do que este sentimento que nos furta toda lógica, racionalidade, senso do ridículo, instinto de preservação e dígitos do saldo bancário?

Claro que existe. Coisa pracaralho, inclusive.

Mas não pense que sou uma pessoa amarga, que repudia o romantismo e todas as juras eternas que o acompanham, só por admitir isso. Bem pelo contrário: eu gosto de Matrix, sou fã de uma boa ficção e acho até que toda essa coisa de “alma gêmea” é um conceito interessante. Quero dizer, graças a isso foram feitos alguns dos melhores livros e filmes que conhecemos.

Só que, verdade seja dita, eles nunca superam os subprodutos do pé na bunda.

Não existe inspiração nesse universo que tenha gerado mais arte do que o amor que sai pela culatra. Sejamos honestos; se você já foi passado pra trás, sabe que não há nada como um belo corno para despertar o artista esquecido. Músicas, poemas, quadros, origami, bonecos de vodu, tudo isso desabrocha tão logo percebemos que o “eu te amo” virou “vá se foder”.

Aliás, é um caso de estudo. Não conheço nada nesta dimensão que transmute com mais velocidade que o amor. Ele vira ódio antes que o Super-Homem consiga sequer pensar em vestir suas ceroulas vermelhas, numa cabine telefônica.

Pergunta pra Alanis Morissete. Dá até pra ver uma veia saltando na testa dela, enquanto escrevia a letra de You Oughta Know:


Did you forget about me, Mr. Duplicity?
I hate to bug you in the middle of dinner.
It was a slap in the face how quickly I was replaced
Are you thinking of me when you fuck her?


(…)


And I'm not gonna fade,
as soon as you close your eyes, and you know it.
And every time I scratch my nails down someone else's back
I hope you feel it...well can you feel it?


E estes são só os trechos revoltados. O resto da música contém ironia o suficiente pra matar um humorista inglês:


An older version of me,
Is she perverted like me?
Would she go down on you in a theatre?
Does she speak eloquently?
And would she have your baby?
I'm sure she'd make a really excellent mother.


Claro, a tia Alanis não soube lidar lá muito sutilmente com a perda. Existem pessoas que são um pouco mais cool nesse quesito. Tipo o Phil Collins, que ao invés de mandar a outra pessoa enfiar uma granada sem pino no rabo, optou pela linha “não to ligando de ter sido mais avacalhado que a Vanusa cantando o hino” :


Well, I dont care now what you say,
cuz every day Im feeling fine with myself.
And I dont care now what you say.
Hey, Ill do alright by myself.


(…)


And I really aint bothered what you think of me,
cos all I want of you is just a let me be (…)
I dont care what you say,
I never did believe you much anyway.


Basicamente o cara tá dizendo que cagou litros pro rompimento e que nem tava tão afim, mesmo. Sabe, né? A velha mentira descarada que todo mundo conta pra tentar se convencer de que a coisa não é tão ruim. Seria o equivalente sentimental àquela criança que perde três dentes de leite no balanço, e depois sai dizendo que “nem doeu”.

E estes são apenas dois exemplos. A lista teria quilômetros se eu entrasse no repertório sertanejo, e estratosférica se entrássemos nas composições emo que contagiaram o mundo feito uma pandemia de gripe.

Mas só pra não dizerem que me falta patriotismo, uma palavrinha de Waldick Soriano sobre o tema:



Tu não sabes compreender

Quem te ama, quem te adora
Tu só sabes maltratar-me
E por isso eu vou embora.

A pior coisa do mundo
É amar sendo enganado
Quem despreza um grande amor
Não merece ser feliz, nem tão pouco ser amado.



Reparou que o sujeito faz o tipo “vou dar um pé, antes de levar”, né?

Isso raramente dá certo, porque no fundo você sabe que não ter sido oficialmente chutado foi mais uma questão de tática, que de merecimento. Sua bunda já tava na mira faz tempo.

E pra encerrar, seria uma heresia não fechar o post citando a musica que melhor descreve o fundo do poço pra onde o toco te arrasta. O hino preso na garganta de todo mundo que já percebeu o quão deliciosamente filho da puta um grande amor pode ser.

Senhoras e senhores, se algum dia vocês encheram a cara pra esquecer um pé na bunda, é hora de dizer:





Porque, se o amor criou Romeu e Julieta, o pé na bunda nos deu Reginaldo Rossi e seu cabelo Assolan.
E depois disso, filhote....  não tem como torcer pra sermos felizes para sempre, tem?  =P

Juramento de "Hipócritas"

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Se você tem um plano de saúde, já deve ter percebido que – como sempre acontece com planos – ele nunca funciona.

Tente marcar uma consulta e comprove que poucas coisas são tão irritantes quanto a indisponibilidade médica, a falta de boa vontade por parte das secretárias e a ineficácia no seu diagnóstico.

Já começa pelo maldito guia. Lá existem milhares de nomes, cujos quais você nunca ouviu na vida, e é dentre eles que você deve sortear o ser humano ao qual irá entregar sua saúde. E depois ainda falam em “roleta russa”.

O único e mais plausível critério pra selecionar o profissional é a proximidade entre ele e a sua casa. Isso sem contar a simpatia pela graça do sujeito: acabamos rejeitando Rodrigos por que parecem muito novos, Felisbertos porque parecem muito velhos, ZunChuLis porque são muito chineses e Ronaldos porque são muito corintianos (licença poética aqui).

Depois de fechar os olhos e apontar aleatoriamente a pessoa que vai ser responsável pela continuidade da sua vida neste mundo (e de esperar aproximadamente dois ciclos lunares por um horário vago) é chegado o momento de ir ao consultório e saber em qual boca de porco você se enfiou.

Geralmente a sala de espera já é um bom termômetro do que te aguarda no consultório. Certos proctologistas, por exemplo, são bastante coerentes: o atendimento da secretária é uma merda e você já toma no cu quando a consulta atrasa em mais de uma hora.

Com sorte, o açougueiro… quero dizer, o médico, vai analisar seu caso de forma superficial, dando eventuais olhadelas pro seu rosto, enquanto digita freneticamente alguma coisa no computador. Você acha que ele está registrando seu histórico médico, eu acho que ele está no Chat da Uol dizendo que a mãe de alguém tem pêlo na teta. Mas isso é uma opinião pessoal, claro.

Por fim, quando você acredita que finalmente resolveu seus problemas, porque o Doutor receitou uma pomada e 3 comprimidos, fica sabendo do famoso “retorno”. Repare, caro leitor, que ele nunca acontece antes de 30 dias. E isso tem uma explicação simples: os planos de saúde só autorizam o pagamento aos médicos por consultas feitas num intervalo mínimo de um mês.

Entendeu a sacanagem?

Isso significa que não importa se o remédio que te receitaram só precisa de 15 dias pra fazer efeito ou se o médico já pode avaliar a sua melhora em menos tempo. Você só vai colocar suas patas assalariadas dentro do consultório outra vez, quando a secretária puder passar seu cartão na máquina e rechear os bolsos do dotô.

É por essas e outras que, quando me falam em saúde pública, SUS e todas essas siglas que traduzem o atendimento vagabundo oferecido pelo governo, eu fico pensando se aqueles que pagam a mais por algum tipo de “privilégio” – se é que ter um tratamento decente pode ser considerado privilégio – está mesmo com a vantagem, ou só está mudando o endereço da carteira pra onde vai o dinheiro que lhe afanaram.

Me desculpem mas, quando o assunto é saúde, eu ainda sou mais a receita de chá da minha avó....

19.10.09

Eles tinham razão.

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Ademar era agente imobiliário. Sozinho, vivera sob as rédeas de uma família supersticiosa durante a infância e adolescência. Fosse por cultura ou falta de argumentos melhores, aprendeu as boas maneiras através de histórias fantásticas: o homem do saco, o boi da cara preta, a cuca que vinha pegar. Depois eram espelhos que se quebravam, o gato preto da vizinha e seus olhos de fogo, as escadas sob as quais não se podia passar.

Quando cresceu, saiu de casa e ganhou independência sobre suas convicções. Tornara-se ateu: nem o céu, nem o inferno o esperavam na morte e por hora ganhava a vida vendendo sonhos que seu salário não podia comprar. O único conforto era culpar a própria incapacidade pelo fiasco de seu destino. Até o dia em que, após receber o triste e magro 13 salário, encontrou um homem na volta pra casa. Armado, tatuagens pelo corpo, olhos febris. Queria o dinheiro que Ademar não lhe daria. Gritos, e de repente a noite se fez vermelha: um corpo, três tiros. E a única verdade que ecoava na morte: pelo menos o número 13 não lhe trouxera mesmo nenhuma sorte.

Homem comum.

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Sentado atrás de uma pequena e insossa mesa, sobre a qual meu nome aparece impresso numa igualmente vagabunda placa de metal, eu me sinto como se mandasse no mundo. Na verdade eu só mando em 7 funcionários mal remunerados e bastante insatisfeitos, mas não importa. Ao lado do nome na placa, resplandece a única coisa que meus olhos se importam em ver: "chefe de departamento".

Sim, eu sou chefe e aquelas cinco letras me conferem o poder de fazer o que eu bem quero desse lugar. Algo extremamente revigorante, uma vez que - embora meu trabalho seja sumamente inútil e tedioso – existem outras pessoas que não só exercem piores e mais tristes funções, como ainda me trazem cafezinhos frescos sempre que eu peço. Afinal elas só tem um emprego; eu tenho um cargo.

Aposto como agora, você leitor, já me considera um porco chauvinista. Um homem sem escrúpulos ou moral, do tipo que chuta pombas pela rua. Está errado: eu tenho cá algum principio e não faria tal coisa com as pombas. Até porque as safadas tem um ótimo reflexo, diferente de mim, que aos 32 anos mal consigo me esquivar dos insultos da minha mulher.

Eu sou apenas uma vítima do sistema. Uma estatística sem valor na demografia brasileira, assim como você. Mas ao contrário de você, eu não me preocupo em disfarçar minha sofrível existência - que nem sofrível o suficiente é para que eu me torne digno de compaixão; nunca passei fome, tenho uma saúde relativamente forte e minha infância não foi exatamente traumática. Pelo menos não mais do que todas são. Eu sou e sempre fui um ponto nulo na sociedade, que se criou na classe média e luta pra dela não sair.

Também não fui dotado de beleza, se é que está se perguntando. O mais longe que minha aparência me levou foi ao banco de trás de um Gol 90, com uma loirinha desinibida no terceiro ano da faculdade. No mais, minha esposa costumava dizer - antes de se afeiçoar à idéia do divórcio - que se encantou mesmo pela minha inteligência. Conversa: golfinhos são inteligentes e ninguém nunca se casou com um. A verdade é que as poucas e felizes noites de sexo irresponsável da minha vida foram fruto de muita insistência e uma certa dose de álcool.

Infelizmente, porém,  não tive muito tempo para exercitar tais técnicas de conquista. Numa dessas noites em que a tequila falou mais alto que a razão, acabei arranjando um filho, um casamento falido e a pior ressaca da minha vida. Embora já conhecesse minha esposa há anos, nunca cogitei a possibilidade de manter com ela algo mais sério que um fim de semana na praia. Ela, no entanto, parecia nutrir por mim uma espécie de amor platônico, desde os tempos de colégio, quando dividíamos a mesma sala de aula e o lanche no intervalo.

Lembro que receber a notícia de que ela estava grávida, foi como receber uma bolada de baseball nos  testículos. Duas vezes. Posso jurar que o quarto ao nosso redor deu algumas piruetas e o mundo entrou em slow motion. Não me parecia plausível a idéia de que um cara, que não conseguia pagar as próprias multas de trânsito, pudesse se tornar responsável pela vida de outra pessoa. Ou melhor: de duas.

Então, coloquei as mãos na cabeça e fiz o que qualquer homem na minha posição faria: entrei em pânico.

Claro que ela esperava uma reação mais calorosa. Algo como um choro compulsivo, declarações de amor eterno e meia dúzia de rojões. Bem, eu estava bastante perto do choro compulsivo, se ela quer saber. Pelas próximas duas horas, ambos debatemos nossas opções: aborto foi logo descartado – ela era de família religiosa e parecia acreditar que nós pegaríamos perpétua sem direito à condicional no inferno, por isso. Apesar das outras possibilidades não me parecerem menos terríveis – e da certeza de que a reação dos pais dela, ao receberem as novas, colocaria o Apocalipse no bolso – aquela idéia também não me agradou. Decidimos ter o filho.

Desde então minha vida foi uma sucessão de insatisfações constantes que, com sorte, podiam acabar em momentos de alegria passageira. Marcamos o casamento pra maio, por que essa parece ter sido uma das condições impostas pelo pai dela, caso eu não quisesse ser castrado. A cerimônia foi cara, mas saiu do jeito que a minha mulher esperava. O vestido, as alianças, o bolo, a roupa refeita trinta vezes das damas de honra, cada lembrancinha enrolada em fita dourada, estava tudo lá. E por incrível que pareça, até o noivo apareceu na hora do sim.

Por falar em bolo, não sei se foi culpa de algum ingrediente, mas logo após a lua de mel – passada numa paradisíaca praia há 2 horas de casa, e tudo que meu dinheiro podia pagar – minha mulher começou a repensar nossa recente união. Ela gosta de dizer até hoje que eu ronquei durante duas noites, antes de resolver cumprir meu “papel de marido”. Erro meu; ter arcado com quase todas as despesas da festa, agüentar o olhar psicopata do meu sogro sempre que eu chegava a menos de 2 metros dele e encontrar um lugar decente pra abrigar minha mais nova família, obviamente não eram coisas que me abonassem como marido.

Enfim, os meses foram se passando. Quando o Henrique nasceu, senti a mais genuína felicidade que um ser humano pode experimentar na vida. Era como se, de repente, todos os sonhos e desejos dos quais eu havia aberto mão durante aquele tempo, culminassem num único e arrebatador momento de alegria. Eu era pai e nada podia mudar aquilo.

Minha mulher também parecia se sentir mais confortável no papel de mãe, que no de esposa. E aquilo não me importava: durante alguns anos eu realmente sublimei a vida apática que estávamos levando, por que o bem estar do Henrique era tudo o que me preocupava. E ele era um garotinho extremamente feliz com a fantasia de família que havíamos construído.

Em 3 anos passamos de marido e mulher, à cão e gato. Tudo o que eu fazia era motivo pra que uma discussão infindável e recheada de lamúrias começasse. O simples fato de não levantar a tampa da privada podia gerar uma guerra nuclear sob nosso teto e, do meu lado, a compreensão também não dava as caras. O jantar nunca estava bom o suficiente, não importa o quanto ela houvesse trabalhado nele. Minhas roupas sempre estavam mal passadas, ainda que não apresentassem vinco algum.

Como era de se esperar, pouco depois do Henrique completar 4 anos, veio o divórcio. Já que havíamos casado sem separação de bens, minha mulher levou boa parte do meu dinheiro, da minha paciência e também a guarda do nosso filho.

Claro, haviam as benevolentes visitas e os eventuais finais de semana pra que eu pudesse exercer minha paternidade. Mas, além da pensão, parecia que não havia nada que eu pudesse oferecer que fosse satisfatório pra ela. As vezes me perguntava pra onde aquela paixão colegial havia ido. Ou quando havia se tornado ódio. Nunca encontrei a resposta e – eventualmente – também parei de procurar.

Hoje em dia sou um cara na casa dos trinta, divorciado, pai aprendiz, com algum dinheiro e uma tímida, porém promissora, calvície em desenvolvimento. Definitivamente, minha vida não vem saindo como eu planejei. Mas acho que ainda existe tempo pra fazer alguma coisa com ela. E no momento, o que eu realmente quero fazer é beber um cafezinho quente, bem aqui, na minha insossa e pequena mesa de chefe.

Orcú.

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